pivô pesquisa 2021 - ciclo 1

enquanto tudo é dito e feito

O ciclo 1 do Pivo Pesquisa 2021 é informado pela constelação de artistas, curadores, produtores, acadêmicos, participantes e públicos que inventaram maneiras de estar juntes, num contexto pandêmico, entre os dias 8 de março e 2 de junho de 2021 – cronologia essa que organiza, ao mesmo tempo que oculta as diferentes dimensões dos tempos vividos.

Ao contrário de um statement curatorial a priori, que pudesse operar como um guarda-chuva para a diversidade de práticas que compõem esse ciclo, trata-se de uma curadoria em processo, que se faz na proximidade com a processualidade de cada artista e demais participações – enquanto tudo é dito e feito.

Como abertura para essa experiência, fomos provocados pelo título da aula inaugural do Pivô Pesquisa 2021, proferida pela professora, filósofa e artista Denise Ferreira da Silva: "Depois que tudo for dito e feito"

Em sua produção, Denise nos convoca a um tipo de contato e disposição na relação com as obras e seus materiais, recusando uma análise crítica que delimite, produza entendimento e reduza as possíveis experiências geradas por trabalhos de arte. Seus textos, compartilhados junto ao grupo de artistas, nos colocam diante de maneiras outras de habitar o campo artístico, e também, da vida, especialmente pelas noções de luz negra e de uma poética feminista negra – presentes no artigo "Em estado Bruto" (2018). Leia aqui ︎︎︎

O pensamento de Denise nos permitiu costurar diferentes relações ao longo da residência: com artistas, com a instituição ou no encaminhamento de convites dos demais participantes. Estiveram conosco: as artistas Amanda Melo e Virginia de Medeiros, com a prática de constelação sistêmica de processos artísticos; um grupo de interlocutores que dialogaram pontualmente com cada artista; e ainda, na última semana de residência, o artista Ibã Huni Kuin, que compartilhará seus  processos, fortemente atravessados pelos saberes e vivências indígenas e da floresta. 

Convidamos o público a navegar pelas páginas-processos de cada artista, bem como ler a seguir uma introdução a esses processos, materialidades e questões de cada pesquisa. 

Acompanhe também, no site do Pivô︎︎︎, as diferentes programações para a semana de atividades Campo Aberto, que acontece entre os dias 21/05 e 29/05.









sobre os processos artísticos




Denise Alves-Rodrigues: Itaporã <> Araçatuba <> São Paulo. Mágicas, feitiços, alquimias, bruxarias. Erros, indeterminações, experimentações – quase-ciência, pseudociência, teorias duvidosas. Quais as formas de conhecimento do mundo? Quais os métodos, os instrumentos, as epistemologias, os procedimentos, as formas de representação? Inventar. Inventar. Inventar. Sustentar a dúvida diante de todas as verdades; perseguir o desconhecido sem querer desnudá-lo; manter o interesse pelo mundo como interesse pela própria vida. O que nos dizem e como nos conduzem os elementos e os seres da Terra que não falam? Qual a consciência das coisas? Minerais, estrelas, dejetos, vírus… Qual a nossa habilidade de resposta diante das ocorrências cotidianas? Nossas parafernálias, teorias e protótipos podem nos ajudar? 


Eduardo Araújo Silva – Dudx: Campo Grande <> São Paulo <> Itanhaém. Corpo-Fóssil. Corpo-Abjeto. Meio bicho, meio concha. Meio humano, meio planta. A imagem-corpo de um ser por vir, carregada de rastros e estilhaços do que já foi. Uma vida-corpo-matéria de passagens, de trânsitos, de transes, de metamorfoses, de hibridizações e de incorporações. A imagem de si com imagens de outros: seres, dejetos, plantas, minérios, objetos, ancestrais, plásticos, componentes eletrônicos e digitais. Cosmologias brasileiras encarnadas, ritualizadas, performadas – Oxumaré – vida em movimento entre o céu e a terra, sob mantos-peles-trocados como cobras, em expansão. 

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Julia da Mota: São Paulo. Percorrer a cidade. Encontrar seus respiros. Buscar os céus. Contra a tempestade exterior, retornar à casa. Abrigar-se no próprio corpo. Descobrir a si, na ausência do outro. Observar, ficcionalizar, desenhar, pintar, gravar, imprimir, repetir tudo de novo. Contrastar, fragmentar, respirar. Imaginar léxicos: de formas, de cores, de sensações, de paisagens. Metafísica do vazio. Efeitos Arquitetônicos. Materializações espaciais. Relações sociais. Contra o caos urbano: intimidade pandêmica – racional, emocional e concreta.

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Juno b.: Fortaleza <> Piocerá–Cerapió <> São Paulo. Entre o orgânico e o inorgânico. Entre a materialidade e o invisível. Território indefinido. Zona de Litígio. Lugar sem definição, incerteza, especulação. Habitar as fronteiras, os microclimas, as composições. Objetos encontrados. Metáforas biológicas. Matéria morta como alimento. Algas, musgos, peixes, minérios. Como aprender com formas de vidas outras? Reconhecimento e hibridização: transespécie, transgênero, luminescência. Refazer os sentidos da luz e da escuridão. Sustentar os mistérios. O que pode ou não ser dito? Experimentação. Ética. Intuição. Isso não é uma metáfora.

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Laryssa Machada: Porto Alegre > Salvador < Encruzilhada do Sul. Palhas, Vestimentas, Plantas, Antenas, Capacetes, Pipocas, Plásticos, Máscaras, Bichos, Bacias, Câmeras, Comidas. Verdes, Amarelos, Azuis, Vermelhos, Ouro e Prata. Fotografia–Encruzilhada. Imagem-Ritual. Ferramentas disponíveis – tecnologias ancestrais. Às vezes pra acessar a terra precisamos cair. O que aprendemos com a queda? O que esperamos com os trânsitos? Como se refazer, se proteger, se curar, nessa travessia de caminhos-campos-minados para corpos racializados? Resgatar e cultivar implicações profundas com o cosmo, com a Terra, com as histórias e com as energias, contemporâneas-ancestrais. Exercícios de composição-ritual de produção e fabulação da vida. Se perder e se localizar, transcender – na concretude, na desprogramação e no encantamento. Disputar imaginários e memórias coletivas. Desacostumar, na magia e na desobediência, o absurdo da invazão brazil.

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Noara Quintana: Florianópolis <> São Paulo <> Belém <> Paris. Seringueira, látex, borracha. Trânsitos materiais, trânsitos humanos. Exportação, expropriação, extrativismo. Histórias, mitologias e tecnologias roubadas. Entre a natureza selvagem e a selvageria colonial: Belle Époque dos Trópicos e Art Nouveau. Grand Palais, Vitória-régia, Irupé. Revolução industrial, violência colonial. Fordlândia com Zona Franca. No Grão-Pará, Paris dos trópicos. Flora europeia como ornamento à casa brasileira: abajures, papéis de parede, vasos, fachadas, xícaras, talheres. Aglutinações imperialistas – Caotchu – Borracha que joga, borracha que roda, borracha que apaga, borracha que escreve. Ancestralidade elástica, que não some – tingida de branco, de vermelho ou de jenipapo – Tinga. Sustentar, desde a invasão de Pindorama, a desconfiança de juruá.

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Raphael Escobar: São Paulo. Café com açúcar e cigarros – Ansiolíticos, antidepressivos, anabolizantes – Anfetamina, efedrina, quetamina – Crack, maconha, LSD – Barcelona, Donkey Kong, Aspirina – Azitromicina, Ivermectina, Hidroxicloroquina – Drogas ou remédios? Alquimia da legalidade. Ética capital. Moralismo econômico e colonial: from hemp to cotton; from weed to marijuana. Guerra às drogas como guerra aos corpos. Necropolítica psicoativa. Jardins, Perdizes, Vila Madalena, Vila Nova Conceição – Cidade Tiradentes, Jardim Elba, Bom Retiro, Parelheiros. Substâncias partilhadas. Substâncias adulteradas. Bala pra dormir, bala pra acordar, bala pra adoçar, bala de efeito moral. Que balas você usa?

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Yná Kabe Rodríguez Olfenza: Recanto das Emas. Epistemologias e pedagogias travestis. Maria Clara, Ana Flor, Érica, Thiffany, Luma, Paula Beatriz... As inesquecíveis. Vivência Coletiva. Pajú compartilhado. O que não tem espaço, está em todo lugar. A arte aqui, é concreta – PIX performance 💸 – Marketing digital. Arte como conveniência – sim, como a loja do posto na esquina da sua casa. Oportunidade como vírus de computador, como acesso, como transgressão. Prosperidade travesti. Santacué – Nada Turismo – Travesti University. Renomear o mundo. Inventar nomes. Reafirmar o óbvio – o possível e o impossível – o traduzível e o intraduzível – ngm aqui é dicionário 😝✌🏼. Memes, GIFs, samplers, stickers 😘. Abram os espaços, abram os caminhos – nosso hacking 🖥️🧬é total, é construção  epistemológica e contraestrutural. #SóNãoPodeSeApaixonar #UniversidadeTravesti

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artistas participantes
Denise Alves-Rodrigues
DUDX
Julia da Mota
Juno B.
Laryssa Machada
Noara Quintana
Raphael Escobar
Yná Kabe Rodríguez


acompanhamento curatorial 
Cláudio Bueno e João Simões
Plataforma Explode!


aula inaugural
Denise Ferreira da Silva

pivô visita
Ibã Huni Kuin

oficina
Amanda Melo e Virgínia de Medeiros

pivô convida
Beatriz Lemos
Camila Bechelany
Eliane Potiguara
Ode
Pablo Lafuente
Paloma Bosquê
Sidarta Ribeiro

interlocução curatorial
Catarina Duncan
Hélio Menezes

equipe pivô 
Fernanda Brenner
Leonardo Felipe
Paula Signorelli
Raquel Sena
Thiego Montiel







A dinâmica dos primeiros encontros do ciclo 1, do Pivo Pesquisa 2021, foram provocados pela música Got To Be Real (1978) de Cheryl Lynn. Para os curadores Cláudio Bueno e João Simões, da Plataforma Explode! <explode.life>, a música convoca artistas, pesquisadores e demais agentes do campo das artes a lastrearem suas práticas e discursos diante das diferentes dimensões da vida e das realidades impostas e imaginadas às quais cada pessoa se insere.



A partir dessa provocação, cada artista trouxe para a roda, uma música ligada à sua pesquisa. Compartilhamos a seguir essa playlist: